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sexta-feira, 3 de abril de 2015

Teoria da morte completa

“Não creio no inferno, pois estou nele”. – Arthur Rimbaud
“Você pode ser um daqueles que não vão morrer completamente”.

JM Cunha Santos



Não é mais possível continuar aceitando a dicotomia de céu e inferno, se a própria vida se revela inferno para uns e paraíso para outros, independente se praticam o bem ou o mal. Creia-se, antes, na morte, por mais factível, supostamente inexorável, de tudo o que se move na terra. A idéia da transformação inevitável, de homens enterrados virando tapurus e lombrigoides, a reciclante produção em cadeia da natureza, se finalista, deixa um oco intransponível na fé.
Qualquer que viva mais de 15 anos perceberá que em si mesmo há algo além da carne e do cérebro, além da agonia física e da felicidade mental. Os sentimentos variáveis de ser humano para ser humano confirmam isso. A ternura, por exemplo, é um atentado de comoção do qual nem todos são capazes. A isso chamamos espírito.
Os tratados religiosos, como os científicos, preferem achar, por indução ou perplexidade, que o espírito é imortal.. Essa é a dúvida que aqui desvendamos, pois defende essa teoria que o espírito pode morrer ou não. Morrerão completamente, ou seja, o corpo e a alma, os maus; morrerão pela metade, somente o corpo, os bons.
O limbo preserva uma idéia de direitos e deveres não satisfeitos ou cumpridos. O céu e o inferno são extremismos da decepção humana. Todos gostariam de viver para sempre; nenhum viverá. Apenas parte: os espíritos dos que praticam o bem. Não se trata de reencarnação, mas de preservação de parte de um todo que nos faz humanos. Portanto, não se exclui, nesse teor, a vida eterna.
Posto que a carne não é apenas vencida, é supérflua e que o cérebro também é carne, só a parte sanável do indiviso pode ser preservada na aventura humana.
Não descarta também essa teoria a idéia da existência de Deus. Um poder superior escolherá os que não vão morrer totalmente. Mas não existe um inferno para as almas dos pecadores, elas simplesmente deixarão de existir junto com o corpo. Os assassinos, estupradores, torturadores, exploradores, corruptos não existirão mais, se extinguirão por completo. Esse será o castigo. Os benevolentes, dóceis, amáveis, compreensivos, piedosos, continuarão a existir, mesmo que não sejam mais vistos aqui na Terra. Se o lugar onde estarão depois da morte será o paraíso é discutível, mas certamente não será o inferno que, como farsa empírica, também deixa de existir.
Os que imaginaram o Olimpo, com praticamente um deus para cada desgraça e ventura do ser humano, talvez estivessem mais próximos da verdade que esses que imaginaram o Deus único. O homem é duo, Deus precisa ser poli.
Todos – e são bilhões de consciências – esperam ser arrebatados de alguma forma. Ninguém se conforma com a idéia de morrer completamente, de não sobrar de si para si mesmo uma única recordação, de extinguir-se por completo como se nunca houvera havido.
A idéia de que todos os espíritos sejam imortais, parte deles destinada ao céu, outra parte destinada ao inferno, é pavorosa e desconcertante. Essa tese dignifica a iniqüidade. A idéia de que os espíritos maus vão vagar no fogo eterno até encontrarem outro corpo para promover massacres, faz feliz o sofrimento. Não é assim. Os espíritos, embora voláteis, também podem morrer, se fazem parte do eu. O eu, aqui, deixa de ser indiviso.

Quando puder acreditar nessa verdade, entenderá que você pode ser escolhido entre aqueles que não vão morrer completamente. Por ter estado do lado certo nessa eterna e inconfundível luta entre o bem e o mal. 

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