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quinta-feira, 16 de julho de 2015

A lei de Lynch

Editorial JP, 16 de julho



“Não matarás”.  Eis a ordem definitiva dos deuses em qualquer religião e, entre os céticos, há uma expressão lapidada segundo a qual um crime não justifica outro. Todas as consequências que levam ao linchamento tem por trás de si históricos de tensão econômica, discriminação, guerra, insegurança, preconceito, opressão racial e fanatismo.
Foi assim com a mulher adúltera salva por Jesus Cristo quando o adultério feminino era punido com apedrejamento. Mas julgam alguns que participam de linchagens ou que as assistem estar promovendo alguma forma de Justiça. Um erro crasso e um ato de desumanidade sem medidas, no qual muitos homens se juntam para tirar a vida de outro homem ou de um grupo que julguem ter excedido os limites da convivência social. Pra corrigir um crime, cometem outro crime ainda maior.
Está no Jornal Pequeno de segunda-feira a notícia de 10 mortes acontecidas em 9 linchamentos entre os anos de 2013 e 2014 e por absoluta falta de investimentos na segurança pública. A história de assassinatos cometidos por multidões tem faces terríveis como se a multidão adquirisse um cérebro novo e que não pertence a ninguém em particular, incapaz de medir as consequências de seus atos. Porque não pode ser justo que se apedreje uma mulher, nem esses contos terríveis de pessoas queimadas vivas porque aparentavam ter ligações com bruxas e duendes.
Charles Lynch era um coronel do exército que promovia esse tipo de massacre durante a guerra da independência dos Estados Unidos. William Lynch, capitão do exército, mantinha um comitê de para manutenção da ordem no condado da Virgínia. Não era nada, era só um comitê de assassinos.
Cada um tem sua própria visão de Justiça e muitos julgam que deve ser imediatamente morto qualquer um que transgrida as leis da convivência social. Sem julgamento, sem que se tenha sequer uma prova cabal de que o indivíduo realmente cometeu um crime. A pena de morte instantânea, por enforcamento, foi muito praticada na Idade Média, mas somos seres humanos, não somos animais, feras adoecidas trucidando outras pessoas na mais pungente forma de espetáculo público.
Os judeus linchavam suas mulheres, os alemães assavam judeus vivos durante a segunda guerra e uma parte dos brasileiros julga-se no direito de “justiçar” assaltantes e até inocentes. Inocentes, sim. Não da para esquecer o caso da mulher evangélica acusada injustamente de torturar crianças que foi morta a pancadas por uma multidão em São Paulo.
O certo é que não pode haver alegria, nem satisfação dos sentidos no ato de tirar a vida de alguém, seja o mais cruel e impiedoso bandido. Isso nos encaminha na direção de uma sociedade sem regras, sem leis, onde será impossível se viver. Se cada cidadão se transformar em juiz e carrasco de seus semelhantes o mundo repetirá todas as carnificinas que a História não cansa de registrar.
Se, às vezes, é muito grande a nossa dor e ainda maior a indignação diante das atrocidades que se cometem, devemos ter o cuidado de não cometer, por conta disso, outras atrocidades e espalhar uma dor ainda maior.

A lei de Lynch é, definitivamente, uma barbaridade que ofende a paz dos homens e o faz sangrar o coração de Deus. 

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