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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O retrato de Dorian Gray

Editorial JP, 26 de janeiro
Oscar Wilde ofendeu a sensibilidade moral dos críticos britânicos com seu romance “O retrato de Dorian Gray”, mas acabaria desafiando a crítica e a moral pequeno burguesa da época publicando uma edição revisada e ampliada do livro prematuramente censurado pelos editores. A nova edição trazia, também, um prefácio aforístico – uma apologia às relações entre a arte do romance e o leitor.
A pouco sutil crueldade que se esconde, ainda hoje, por trás das críticas e acusações à mentalidade hedonista de escritores e poetas, entregues a vícios e prazeres de toda a sorte, escravos da beleza e da arte, é tão velha quanto os sótãos onde herdeiros das melhores castas sociais, consumiam ópio e se entregavam à devassidão. Com a diferença de que o poder e o status tendem a ocultar as démarches morais que acontecem nas mansões e, entre os empobrecidos, sem direito a justiça nem vestes brilhantes, a amoralidade divulgada pode redundar até em prisão.
Mas o romance é de uma genialidade só permissível aos pecadores públicos. A partir de uma pintura de Basil, Oscar Wilde conta a história de um homem (Dorian Gray) que vende a alma ao Diabo para que, em vez dele, envelheça o seu retrato, até que desapareça. Aceito o contrato, Dorian passa a perseguir uma vida libertina, de variadas experiências amorais, enquanto seu retrato envelhece e registra, nas rugas e sulcos da face, todos os pecados que corrompem a alma e que Dorian se aventura a cometer.
Assim como os críticos britânicos do século XVIII, parte da imprensa se comporta como Dorian Gray, apressando-se em produzir críticas vazias, criar factoides, caluniar autoridades, na vã ilusão de que seus retratos superpostos nas paredes evitarão o envelhecimento ou esconderão a face marcada por pecados, as marcas hediondas de uma ação profissional que atinge e fere famílias e não se coaduna nem preocupa com a verdade. Além do que defende a corrupção.

Essa libertinagem profissional serviu muito à censura e à manipulação dos fatos e precisa ser desafiada e combatida da mesma forma que Oscar Wilde desafiou os críticos e a censura à sua época. Acrescentando-se, ainda, que àquela época não existiam monopólios dos meios de comunicação com poder de sabotar a verdade, como nos dias de hoje, onde há muitos Dorians pendurando retratos inutilmente nas paredes, inclusive nas paredes do Maranhão.

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