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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O vídeo suspeito: eu já vi esse filme

Editorial JP, 29 de setembro

A intelectualidade nociva dos personagens encapuzados não é o único fator surpreendente num vídeo que supostamente teria sido gravado por bandidos na Penitenciária de Pedrinhas enviando recados para o governo e com reivindicações dignas de comunidades trabalhadoras as mais exploradas. Há muito mais por trás dos panos finos e coloridos dos capuzes, como a linguagem ilustrada, livre do tom agressivo e da pornofonia natural da bandidagem, o que levanta a suspeita de que tudo foi ensaiado, com direito a diretor artístico, contra regra e, principalmente, diretor de iluminação.
Linguagem ilustrada apenas, não. Parece texto de professor, advogado, sociólogo ou jornalista, com expressões semânticas como “máquina opressora do Estado”, contestações como a de que “o governo não tem como suprir nossa alimentação” e acusações constitucionais como a de que “o governo não age como rege a lei”, deixando a impressão de que há uma universidade funcionando dentro do Complexo Penitenciário de Pedrinhas ou, então, de que as facções criminosas chegaram ao nível de pagar cursos de pós-graduação em mestrado e doutorado para seus membros. Um curta metragem digno de cineastas hollyoodianos. Bem diferente, na linguagem, sonorização e dicção, das falas arrastadas e famintas das favelas ou de quem passou a vida gritando “sujou, são os home!” ou “passa a grana, otário ou tu vai amanhecer com a boca cheia de formiga!”.
Evidente que uma produtora de vídeo ou um produtor cinematográfico precisa ter cuidados com a qualidade da animação, os efeitos especiais, para que não se alterem as intenções dos roteiristas, nem se danifique gramaticalmente o roteiro que sustentará a história. É preciso que seus privilegiados clientes, no caso na política e na mídia, recebam um produto de alta qualidade para vender ilusões e mentiras. Tanto é que, visto o vídeo ficcional dos catedráticos bandidos na internet, qualquer produtor executivo se arriscaria a comprar os direitos da obra literária que o originou. O drama é instigante como um épico de Glauber Rocha, apesar do cheiro de comédia de quinta categoria.
E, se vale uma postura de crítico de cinema, o único senão a ser considerado é que o curta-metragem político-eleitoral deixa nos cinéfilos aquela sensação de “eu já vi esse filme”, exatamente num setembro véspera de eleição. No ano de 2014, quando os ataques a ônibus e o terror imposto pelo crime organizado não tinham qualquer resposta policial do governo, o bandido André Caldas, através de um vídeo de produtora eleitoralmente similar, acusou o então candidato Flávio Dino de ser “um dos cabeças de quadrilhas de assaltantes de bancos no Maranhão”.

Repete-se tudo agora e todos podem dizer: eu já vi esse filme, sei quem são o roteirista, o diretor e o produtor. E ele só entra em cartaz em véspera de eleição.

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