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domingo, 9 de outubro de 2016

Por Lauro Leite

JM Cunha Santos


Vagamos muito pelos bares da vida, entupindo as almas de boemia e as cabeças de notícias. Lauro Leite era um pouco o pai de nossas dúvidas, o maestro de nossos desacertos e uma espécie de protetor dos corações desavisados dos poetas sem nome nem futuro. Sempre sabia aonde ir; nunca sabia quando voltar. Mas quando voltava trazia a todos que o acompanhavam como se para nos proteger de desilusões.
Com ele, a marca de uma geração tangida pelo espetáculo de viver a vida em toda sua plenitude, sem crueldades, sem ofender, sem ferir, sem nunca magoar os que o rodeavam. Lembro que soltava versos, tecia crônicas sobre o cotidiano de uma São Luís que parecia morar em suas veias e que subia as escadarias da Assembleia Legislativa, cada vez mais sólido e vagaroso porque só tinha pressa de esperar a noite, a companheira de insônias incompletas que sempre sabia aonde encontrar.
Senti muito, todos sentiram, quando a saúde abalada não mais o permitiu ser o filósofo de todos nós nas mesas compactas dos debates sobre o futuro, enquanto se dividia entre ser o poeta de todos os dias e o jornalista de todas as horas.
Pobre e probo, o alcance de suas mãos e de sua mente era a família, os filhos que amava, as mulheres que o tiveram e um sonho comprido que mais se alongava quando, mesmo sendo chefe, não repreendia, acalentava, não punia, justificava. Sabia admirar de cada um o defeito e transformar em virtudes para que todos se sentissem melhor.
Essa lembrança do meu amigo sem ambições maiores que a de ter amigos, quase como a querer fazer de todos que o rodeavam um parente próximo, torna nostálgica essa passagem pelo mundo. Porque vivemos? O que viemos fazer aqui se logo iremos embora? Serão mesmo as lembranças dos que nos amaram a última morada? E quanto nos custa em dor não poder pagar para sempre o aluguel desse planeta?
De qualquer modo, sua voz ainda está no rádio, ainda ecoa nos microfones da Rádio Timbira, ainda supera suas angústias e as dos outros que, dentro dele, pareciam ser as mesmas. É como se sua única ideologia fosse ser feliz, por mais que doesse.
Era preciso ouvir Lauro Leite antes de cometer erros; era preciso cometer erros antes de ouvir Lauro Leite. O que o continha, entre o mundo político e o mundo poético, entre a boemia destravada e a realidade brutal à nossa volta, era o direito de continuar vivendo para sempre. O que, infelizmente, ele também não conseguiu.

Adeus, meu amigo. E informe a Deus sobre as coisas cruéis e tristes que andam acontecendo por aqui.

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