quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

VIAGEM AO LUGAR QUE NUNCA CHEGA
JM Cunha Santos





Não há mais notícias no

mundo...

Ninguém sabe não me ver

tão bonito quanto ela.



KM 1

Uma atmosfera estranha, de diferenças hormonais se arrumando dentro de um ônibus, enche o espaço de boas e más intenções e de intenções que não são boas nem más, mas que existem mais que as outras intenções. Existem tanto que doem no ar. Entre homens feitos de números e outros feitos apenas de esperanças e emoções, mulheres comemoram a felicidade de não ser homem.

KM 2

Não há mais jornais no mundo. As notícias não aconteceram e ela se debruça na poltrona, vaga, distante, como quem não veio, acelerando respirações à sua volta. A crise econômica não aconteceu, porque ela balançou os cabelos. E porque ela sorriu não houve enchentes. Não há mais notícias no mundo. Ninguém foi cortado a faca ou morreu de bala perdida apenas porque ela, quase de ternura, quase me lançou um olhar.

KM 3...

Leio alguma coisa sobre um viagra feminino e é assustador: ela está no meu pensamento. Tão profundamente que não pergunto mais quem apagou o Brasil. Nesse carro cheio até a tampa de juventude, lembro que devo escrever alguma coisa sobre a incidência de câncer no Maranhão. Mas eles não permitem mais notícias no mundo. Ela toca minhas mãos e eu abandono o por do sol no meio do caminho. Ela se move e não há necessidade de notícias. Para quê?

KM 40

Comemos vida, destruímos chocolates e azeitonas, esticamos os caminhos. O futuro passa lá fora. Uma ruga a mais fica no rosto a cada sorriso. As notícias continuam sem acontecer. Ela desperta sem que nada seja decidido sobre a matança de animais ou sobre o Processo de Eleições Diretas no Partido dos Trabalhadores. Ninguém sabe nada sobre Brasília, sobre cuecas, meias e panetones. Sem notícias, ela inteira é um sorriso que me desmancha até o tamanho do meu silêncio, da minha timidez.

KM 50

Eles estão por perto, os seres da minha escuridão particular. Ela parece tão bonita quanto uma águia fugindo, tão bela que impede os comentários, cessa as conversações de paz no Oriente Médio, cancela o mapa da corrupção, não deixa um único desastre acontecer.

KM 70

Gostaria de estar dentro dela. A vida é azul. Todas as camisas ficaram azuis. Azuis são os sorrisos e a falta de ternura. Acho que ouço violoncelos e flautins e garças passeando nos planetas. Meu corpo arde porque estou farto de seus medos e, quem sabe, sem uma única notícia, próximo de chegar ao lugar que nunca chega.

KM 100

Estou com medo da madrugada. Perdi o endereço da fábrica de sonhos, minhas ilusões não cabem numa caixa de fósforos, minhas conquistas partiram e minhas esperanças estão com elas no mesmo trem. Não há nenhuma notícia sobre a vida, sobre os homens e as vidas dos homens. Ela se espreguiçou e nenhum traficante foi preso, nenhuma criança morreu por falta de atendimento num hospital público.

KM 150

Agora as flores impõem silêncio. Um ar pesado, carregado de frustrações e complexos, exige que as notícias existam, que aconteça alguma coisa porque faz tempo demais que nada acontece a não ser o seu sorriso fulminante. Seu rosto parece partido em muitas faces enquanto dorme aturdida por cães que ladram à distância. O lugar que nunca chega fica mais longe. Ela faz que não me vê. Ninguém sabe não me ver tão bonito quanto ela.

KM 200...

São os números. Eu culpo os números por essa distância. Preciso de notícias. Nenhuma bomba explodiu, não aconteceu nenhuma catástrofe. Nem sequer um terrorista exibiu o Alcorão num aeroporto. Ninguém partiu para a lua e é tudo culpa dela que se deixa acontecer. Deixa acontecer seu corpo e aqueles gestos impacientando a minha solidão.

KM 500

Estas cidades velhas, com pessoas velhas sentadas nas calçadas, estas cidades com uma lua para cada habitante, lembram dias em que existi. A viagem termina. Eu cheguei ao lugar que nunca chega. Há notícias na televisão, nos jornais, nos computadores. Há notícias nas pessoas. Preciso voltar e pegar de volta o por do sol que esqueci no caminho.

Um comentário:

  1. Amigo, deixei uma mensagem de boas festas a todos, no meu blog, mas sinto a obrigacao de o fazer pessoalmente a alguns. Entrei de ferias e provavelmente nao passarei por aqui ate ao ano que vem. Deixo-lhe os meus voros de um santo natal e bom ano para si e para os seus. Aquele abraco

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