domingo, 30 de junho de 2013

“O crack não deu oportunidade de controle a ninguém”, afirma terapeuta

Por JM Cunha Santos

Kamila Arraes, diretora técnica do instituto Ruy Palhano
Durante cerca de 30 minutos a reportagem do Jornal Pequeno conversou com a Diretora Técnica do Instituto Ruy Palhano, Kamila Arraes. Especializado no tratamento de dependentes químicos, o Instituto Ruy Palhano nasceu com a proposta de oferecer a São Luís e ao Maranhão uma oportunidade de reabilitação de pacientes portadores de transtornos relacionados ao   consumo de substâncias como álcool e drogas.
Terapeuta, Kamila Arraes é parte de uma equipe multidisciplinar formada por psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, terapeutas e auxiliares de enfermagem que buscam acolher, tratar e reabilitar usuários e dependentes de drogas. No momento da entrevista ela era um dos profissionais envolvidos nas atividades do mês de junho, quando o Instituto explora toda a diversidade cultural maranhense, com a formação de quadrilhas de São João e Bumba-Boi, concentrando-se na expressividade dos internos, numa festa que envolve também seus familiares.
No espaço terapêutico do Instituto, o “Boi Brilho da Recuperação”, cujos brincantes são os próprios pacientes, expõe as indumentárias típicas dos folguedos juninos e são oferecidas comidas típicas aos devotos de São João. “Nesses momentos, temos a oportunidade de oferecer aos pacientes a vivência de uma experiência de lazer sem o uso de substâncias psicoativas”, explica Kamila Arraes. “É a chance de fugir da concepção de que a diversão tem que estar atrelada ao uso de drogas”, acrescentou.
São atividades lúdicas que se repetem no Instituo Ruy Palhano em outras datas festivas do país, como Natal e Ano Novo e, conforme Kamila proporcionam também a redução do stress adquirido com a internação, tornando-a mais suportável. O carnaval, o natal, o Ano Novo, o 7 de setembro, data da independência do Brasil, são outros momentos que os profissionais aproveitam para explorar a criatividade e expressividade dos pacientes contidas pelo processo de dependência dessas substâncias.
Enquanto conversamos sobre assuntos relacionados ao tratamento e internação, como CAPS, Hospital Dia, a precariedade da rede de serviços de prevenção e reabilitação do uso de drogas existente no Brasil e no Estado, Kamila Arraes conta histórias incríveis sobre o nível de dependência de pacientes que venderam tudo dentro de casa para conseguir drogas. Impressiona a história de um paciente que vendia o próprio lanche escolar dos filhos para adquirir as substâncias psicoativas de sua dependência.
Quando perguntamos sobre o crack e a relação dessa droga com os jovens e adolescentes, Kamila refletiu e afirmou convicta que, ao contrário de outras drogas, o crack não deu oportunidade de controle a absolutamente ninguém, uma constatação que se percebe nos terríveis números das pesquisas sobre essa substância. Dados da Organização Mundial de Saúde apontam que pelo menos 6 milhões de pessoas usam drogas no Brasil, dois quais cerca de 2 milhões consomem ou já consumiram o crack. Fulminante, o crack mata 1/3 dos usuários e 85% deles morrem de forma violenta. Ao baixo preço de 10 reais a “pedra”, a droga, segundo a Confederação Nacional dos Municípios, é comercializada hoje em 98% das cidades brasileiras.
Levantamento do Conselho Federal de Medicina registrou que 442 mil crianças e adolescentes são usuários de crack no país. Em contrapartida, são apenas 310 centros de atenção psicossocial, especializados na questão das drogas e do alcoolismo e apenas 59 unidades de internação.

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