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terça-feira, 26 de maio de 2015

Metanoia e o perdão dos assassinos

Assassinos são assassinos, senhores. Só Deus pode perdoar. E há casos em que nem tem este dever.

Editorial JP, 26 de maio

Há, hoje, no Brasil, uma tendência, digamos, sociológica, de confundir as vítimas das drogas com os assassinos que usam drogas. A violência no país, todos já sabem, suplanta a de países em guerra e muito disso é debitado à conta do tráfico e do consumo de entorpecentes. O que parecem não entender é que as vítimas das drogas são pessoas que sofrem de um sofrimento incalculável, perseguidas por sintomas de autodestruição, alucinações, delírios, debilidade física, desmoralização pública, abandono da família, fome, mendicância, males físicos de toda ordem. Assassinos, usem drogas ou não, não sabem sofrer.
No Fantástico, deste domingo foi exibida uma reportagem sobre uma nova modalidade de crime que acontece em São Paulo e no Rio de Janeiro, invariavelmente cometida por adolescentes.  Consiste em assaltar e esfaquear ciclistas, muitos até a morte. As últimas vítimas fatais dessa barbárie foram um médico, em São Paulo e um compositor, no Rio de Janeiro. E a defesa desses assassinos, jurídica e social, vai lembrar que foram crianças empobrecidas, torturadas pela ausência do Estado e, na nova versão do perdão eterno, vítimas das drogas.
No filme Metanoia, o personagem principal devolve a arma ao traficante por entender que “a violência não é a sua praia”. O problema é que a violência é a praia de muita gente, que usa e que não usa drogas. A verdade é que existe gente ruim, de alma ruim, que gosta de bater, de ferir e sente prazer em matar e fazer sofrer. É o caso dos pistoleiros e torturadores que, em geral, nem drogas usam.  Esses adolescentes que esfaqueiam no Rio e em São Paulo não fazem isso porque são vítimas da pobreza e escravos das drogas. Fazem, porque gostam de fazer. Ou entendemos isso ou não vamos vencer a violência.
Em São Luís, um bando invadiu uma festa no sítio Panaquatira e disparou contra a multidão. Entre eles, havia um ou dois adolescentes. No episódio, morreram quatro pessoas. Isso não é trabalho de vítimas das drogas, nem de vítimas da pobreza, é trabalho de assassinos. Também em São Luís, um policial foi pedir a alguns jovens que retirassem o carro do caminho para poder sair do estacionamento e foi trucidado a balas. Em Imperatriz, duas jovens foram mortas recentemente, uma delas com um tiro nas costas, por dois adolescentes. Quem mata com tanta facilidade não é vítima de droga, não é vítima de pobreza, nem é vítima de coisa nenhuma; é apenas uma pessoa monstruosa.
No mesmo programa “Fantástico”, outra reportagem mostrou o trabalho desenvolvido por uma ONG junto a presidiários. Um homem que estuprou e matou uma jovem e outro que matou duas crianças, estão sendo “castigados” pelo Estado, já que é o juiz que permite, com uma beberagem chamada Chá do Santo Dime que provoca alucinações e, em seguida, segundo eles, um longo bem estar.

Essa tendência do Estado de perdoar assassinos contumazes e recorrentes, se nos parece ainda mais perigosa que o próprio terrível índice de violência que apavora o país. Vamos separar as coisas: famintos são famintos, dependentes químicos são dependentes químicos e, usem drogas ou não, assassinos, senhores, são assassinos. Só Deus pode perdoar. E há casos em que nem tem esse dever.

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