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domingo, 4 de outubro de 2009

LEMBRANÇAS DE QUANDO EU ERA VELHO





(Em homenagem ao Dia
Internacional do Idoso)
JM Cunha Santos



De repente o vendedor de tristezas bateu á minha janela anunciando coisas que curavam remorso, artrite, reumatismo e ensinavam como passar o tempo. Mas a idéia de passar o tempo conversando com as dores, do passado e do presente, me assustava.

Entre seus tubos de ensaio cheios de pomadas contra rugas, de óleos para lubrificar os ossos, havia um cofo de lembranças de que eu já não lembrava mais: livros que li, mas a memória apagou; filmes que assisti à procura de heróis, músicas que já não tocavam mais.

O vendedor de tristezas oferecia televisores em preto e branco, máquinas de dactilografia, sapatos com cadarços, ternos sob medida, relógios à prova d’água e até uma entrada para o baile das debutantes. “Porque me vender tristezas se tristezas tenho tantas sem nenhum valor na bolsa de valores perdidos, sem importância alguma no mercado negro do amor”?

O vendedor de tristezas quis me empurrar discos da “Jovem Guarda”, literatura francesa, poemas de Castro Alves e até uma edição ainda bem cuidada do “10 dias que abalaram o mundo”.

“Moço, não vou comprar minhas próprias saudades”.

Mas aqueles livros, aqueles poemas, aquelas músicas (inclusive “Sem lenço, sem documento”, de Caetano Veloso e “Construção”, de Chico Buarque) traduziram a nostalgia mística, quase fanática de quem viu o televisor colorir, o relógio marcar o passado, a máquina de dactilografia virar computador, a carta de ABC se transformar em software, as botas virarem sapatos e os sapatos virarem botas de novo; de quem viu o carvoeiro desaparecer dentro do botijão de gás, de quem assistiu a ditadura virar democracia e a democracia, ainda jovem e despudorada, se corromper.

E, de repente, estávamos todos ali: eu, o vendedor de tristezas e toda uma geração de cabelos na testa, lendo, sem entender, Marx e Engles, Lênin e Trostski, Victor Hugo, Dostoyevski, Baudelaire, entre os poucos que tiveram chances de se abastecer de ilusões. Do outro lado, Roberto Carlos ainda cantava as irremovíveis ilusões de amor.

Hoje, nessa terra sem poetas, sem meninos desembestados se atirando contra os fuzis na ilusão de construir uma sociedade mais justa, este senhor insiste em me vender recordações. Mas limpo, tranqüilo, sem nenhuma forma de escravidão escolhida sequer ouso contestar a minha geração.

Passado, mas ainda brincando com as metralhadoras dos meus netos gerados em laboratórios, com os sentimentos de seus andróides prediletos, seus robôs que varrem casas, limpam corações e exploram o espaço, lembro que já fui velho.

Quando eu era velho era possível passear nas ruas sem ser assaltado por homens e desilusões; quando eu era velho o por do sol existia e existia também essa vontade de permanecer jovem para sempre.

Quando eu era velho ralhava com meninos que empunhavam baleeiras e matavam pássaros; Hoje os meninos empunham armas, matam homens e quase nada eu posso lhes dizer. Sou apenas um jovem. Feliz e cheio de saudades. (Homenagem ao Dia Internacional do Idoso)



A REPÚBLICA DOS CURANDEIROS



Grigori Yefimovich Rasputin, ambicioso camponês que passou a juventude como ladrão, bêbado, mulherengo e líder de gangues, adepto de uma seita que pregava que só alguém com muito pecado poderia se arrepender sinceramente, conseguiu manipular a monarquia russa.

Curandeiro, Rasputin chegou a controlar a hemofilia do herdeiro dos Romanov, o garoto Alexei, e teve tal influência no Império czarista que nomeou pessoas à vontade para cargos de seu interesse.

Neste Brasil doente de hoje, alguns príncipes sofrem de uma hemorragia moral sem controle e sem precedentes. O desvario pelo poder, a dominação da Justiça, os escândalos constantes e ininterruptos, a indicação de parentes e aderentes para cargos na República, parecem obra de uma multidão de Rasputins cercados de caciques e pajés muito bem aquinhoados. E estes se refestelam num espetáculo gastronômico do dinheiro público a ponto de fazer inveja aos mais rematados canibais.

Investigações, inquirições não dão em nada. Os curandeiros se protegem e protegem os seus, como, por exemplo, faz Sarney com Fernando e com a filha dileta Roseana. E nem vou citar Eros Grau, Tribunal Superior Eleitoral e STF.

Nem sei que beberagens, lavagens, infusões, inalações Rasputin utilizou para conter a hemorragia do príncipe Alexei. Mas o Brasil também está precisando de umas benzeduras, uns chás de ervas, escalda-pés, alguma feitiçaria violenta que o proteja e preserve as instituições públicas.

São tantos os pecados contra esta Nação e seu povo, tantas as investidas a patrocinar necroses éticas e complicações conjunturais na República que me convenci a invocar Grigori Yefimovich Rasputin, que acabou envenenado. Pelo menos para nos convencer de que o excesso de pecados conduz realmente ao arrependimento. Talvez assim o Brasil se livre da hemorragia de seus príncipes.

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