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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Clínica de reabilitação de alcoólicos e dependentes químicos é investigada por torturar 42 pacientes

Unidade de tratamento para dependência química funciona na Zona Norte.
Dois suspeitos foram presos e material foi apreendido nesta sexta-feira (10).
Fabiana Figueiredo Do G1 


O Ministério Público do Estado do Amapá (MP) investiga denúncias de tortura a 42 homens atendidos em uma clínica de reabilitação localizada no bairro Brasil Novo, na Zona Norte de Macapá. O dono do local e o irmão dele foram presos nesta sexta-feira (10), pela Polícia Civil.
Materiais que teriam sido usados para supostos maus-tratos também foram apreendidos na clínica, segundo o MP. Na noite desta sexta-feira, os pacientes e os suspeitos passaram por exames de corpo de delito na Polícia Técnico-Científica (Politec), na Zona Norte. Familiares das vítimas acompanharam a ação no Complexo Cidadão da Zona Sul, localizado na Avenida Padre Júlio Maria Lombaerd, para onde todos foram levados em seguida.


A clínica estava sendo investigada pelo Núcleo de Inteligência do Ministério Público (NIMP). As denúncias indicam que os internos sofriam torturas durante o tratamento contra dependências químicas, com agressões físicas e psicológicas.
“Era tortura. Eles maltratavam os internos. Eram todos viciados em álcool e drogas, eram agredidos psicologicamente, emocionalmente, fisicamente, com uso de algemas, agressões físicas, humilhação, spray de pimenta, palmatória. Foi tudo apreendido, inclusive medicamentos vencidos, hoje [10] de manhã. Ainda estamos em investigação. Estamos na promotoria ouvindo os internos e os dois presos”, informou a promotora Andréa Guedes.
Os dois presos são o dono da clínica e o irmão dele, que é o diretor administrativo da unidade. Além dessa, outra clínica para tratamento de mulheres com dependências químicas, que funciona no bairro Boné Azul, também na Zona Norte, estaria sendo investigada.
Não foi preso nenhum outro funcionário. A ação contou com o apoio da equipe de Captura da Polícia Civil. De acordo com Andréa, a clínica não será fechada por enquanto e deve passar por fiscalização.
“A clínica não vai ser interditada ainda, mas ela vai ser fiscalizada tanto pelo MP quanto pela Vigilância Sanitária. Dos 42 internos, eu creio que somente 12 vão voltar agora à noite. Os outros vão ser liberados para serem entregues à família”, informou a promotora.

Familiares
Parentes das supostas vítimas falaram ao G1 que não imaginavam que os internos eram torturados. O irmão de um paciente de 34 anos, internado há 6 meses na clínica, que não quis ser identificado, contou que, em setembro de 2016, desconfiou do tratamento.
Segundo ele, o irmão teve uma crise de abstinência e precisou ser contido, mas que a posição da clínica foi com violência. As agressões teriam sido nas costas dele, com pauladas e “pranchadas” de terçado. O interno só teria contado à família nesta sexta-feira o que aconteceu à época.
“A gente não acreditava nele, porque a família já passa tantas coisas com o interno, que quando a gente coloca na clínica é o último estágio. Eu não queria perder meu irmão. A gente coloca ele lá para sair melhor, ressocializado, e, do nada, a gente descobre isso. A maioria dos familiares é a mesma história. A gente não quer acreditar e fica a dúvida”, contou.
O irmão da vigilante Cristiane Santos, de 35 anos, tem 20 anos e estava internado na clínica havia 3 meses. Em todo esse período, segundo ela, ele era torturado.
“Ninguém sabia o que ele estava passando lá dentro. Quando a gente ia visitar ele, sempre tinha alguém acompanhando, como se ficasse vigiando. Uma vez o monitor foi ao banheiro e meu irmão falou que não sabíamos o que ele passava lá dentro, mas que não queria que a gente reclamasse de nada. Como ele é dependente químico, achávamos que ele estava inventando isso para poder sair”, disse Cristiane.
De acordo com a vigilante, em janeiro, um dos internos conseguiu fugir da clínica e falou das torturas para a família dela, o que aumentou a desconfiança dos parentes.
“Ele falou que eles eram torturados, andavam de joelhos em cima de pedras, dopavam eles de todo jeito. Meu irmão foi para lá e voltou pior. Ele está assustado, magro, só comia calabresa e mortadela, e a gente pagava R$ 1 mil todo mês, e a cada 15 dias, ainda mandávamos material de higiene pessoal”, reclamou Cristiane.

O caso ainda segue em investigação pelo Ministério Público.

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