domingo, 9 de setembro de 2012

400 anos de saudade

Informe JP, 9 de setembro

São Luís desperta de seus 400 anos sob a velocidade de um domingo de sol. Sabe que historiadores a vigiam, que políticos a disputam, que artistas a transformam em canções. Mas São Luís não quer nada disso, não quer que contem nada sobre ela, nem que cantem. São Luís só quer ser estranha, não quer tanta gente descendo e subindo suas ladeiras, nem modernos solitários sentados em suas escadarias.

São Luís é assim mesmo, porque é de dentro dela que se contempla o mundo. É a cidade do inconcebível, que não suporta mais a existência de tantos poetas em seus barros, que gostaria de cuspir nos turistas que lhe apontam celulares e máquinas digitais de fotografia e nos artistas que desenham seus casarões coloniais.

Nunca São Luís quis ser patrimônio de humanidade nenhuma. De humanidades, até Deus já se cansou. Nem lhe passou pelo senso chegar viva aos 400 anos e, cansada de guerra, sente falta apenas dos pregoeiros que vendiam pamonhas e quebra-queixos, dos sub-sujos que anunciavam carvão de varinha e das mulheres da rua 28 de julho fartas de sexo e solidão.

São Luís quer dormir. Mas os tambores não deixam, os boêmios não permitem e os bêbados insistem em vomitar nos ouvidos de suas noites. Quem disse que São Luís quer ser francesa ou portuguesa está mentindo. É a mesma mentira dos dominadores que desde séculos pretéritos assustam o mundo com suas guerras sem quartel.

São Luís está cansada de parir; afinal, seus filhos se tornaram importantes, viraram doutores, senadores, famosos escritores, sem perceber que ela nem queria crescer, que nunca esteve interessada em progresso e desenvolvimento, que preferia não ter as pontes e viadutos que lhe atravessam o coração.

Talvez São Luís queira de volta seus escravos e tupinambás se afogando em suas praias limpas de tanta confusão e cocô. São Luis preferia existir ainda em preto e branco, magistral menina atacada por canhões, sem pneus arrancando as pedras de cantaria, sem adolescentes drogados se enforcando de desespero nos beirais. São Luís exige que devolvam sua serpente levada daqui não se sabe por que ladrões.

Essa terra de matracas em hotéis de luxo não é São Luís. Essa metrópole sem madrugadas deve ser outro lugar. Por isso, a cidade sente medo de que a mudem do Atlântico Sul, de que transformem em combustível seu imponente litoral. O tempo e essa arquitetura descascada, esses azulejos sem motivos, deixaram a cidade sem fantasmas nem assombrações. E sem fantasmas São Luís não consegue sobreviver. Até a Manguda mataram e a carruagem maldita de Ana Jansen foi atropelada por um caminhão.

São Luís nunca quis ser patrimônio de humanidade nenhuma. Menos ainda dessa que almoça chips e arrota morte e corrupção. São Luís só quer o abraço do mar, só quer a nostalgia de ser distante, o silêncio sem mendigos nas igrejas, uma Ave Maria às seis horas e um reencontro promíscuo e decotado com El Rei Dom Sebastião.

Um comentário:

  1. cunha santos.

    Entre CACHOEIRAS e CASCATAS muitas mamatas, e coelhos saindo destas matas, aguarde e verás que um filho teu não foge a luta, pois ele não encara o adversário vai perder por WO.

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