terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Um sonho de Natal

JM Cunha Santos

Havia um Cristo que nascia a toda hora, uma Madalena que não pecava nunca, um São José que se negava a ser pai e uma partenogênese eterna no meu corpo, além de um anjo decaído que nunca pedia perdão.
Havia um anjo tocando trombetas verdes, um Gabriel anunciando gente morta, um solitário Deus à procura do filho e um cálice que não desgrudava da boca. Mas no meu sonho ninguém bebia do mesmo fel e todos usavam o mesmo cálice. De tanto vinho, a cidade se esticou e o mundo me esqueceu.
Havia um manto que ninguém vestia e um sudário rasgado sem rosto nenhum. Havia pombas brancas destruindo igrejas e um cachorro ruim que lambia o sangue da redenção. Ao longe uma alma latia implorando que existisse mais amor. E o amor chegava em tonéis de mármore para ser derramado sobre nós.
Havia um sino que estourava os tímpanos, uma Virgem Maria que paria a todo instante, soldados armados com lanças de ouro puro e ovelhas cortadas ao meio pelas facas de um pastor. Mais distante ainda, Roma se reconstruía sem aceitar o Imperador.
Nas manjedouras cheias de ervas e açucenas, um filho só e sem irmãos chorava sangue puro e seios fartos explodiam em pedra fria enquanto um louco tentava um poeta enlouquecido tentava escrever um auto de Natal. Bem próximo de mim já era meia noite e o sol chegava trazendo notícias do renascimento de Deus.
As estrelas que os reis seguiam, em cacos, retornavam às suas origens, o incenso feria os olhos e a mirra se espalhava nas nebulosas. Alguém queria morar para sempre na bacia que sobrou do parto e as guerras santas só eram santas porque também os santos não se amavam. De dentro de um facho de luz chegou o decreto de que a raiva e o ódio não existiriam mais.
Juízes decaídos, escancarados, julgavam Herodes e um senhor de barbas brancas e roupas vermelhas, carregando um saco de esperanças, lavava as mãos de Pilatos. Todos sorriram quando o tribunal pronunciou a palavra inocente e todas as culpas recaíram sobre mim.
No meu sonho de Natal pistoleiros chutavam berços, um ser sem alma revendia órgãos públicos, os brinquedos eletrônicos – foguetes mísseis, bombas e até o trem das onze – eram fatais. E quando alguém disse “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”, todos souberam o que fazer: tentaram destruí-Lo, a Ele, imenso e indestrutível, poderoso e amado para sempre, mas apenas o eternizaram em nossos corações.
Não havia brinquedos debaixo da cama quando acordei. Mas Jesus chorava e, sem outra saída, me abraçou.

Um comentário:

  1. Cunha Santos.

    Como sempre os nossos corações ficam tocados pela solidariedade no dia de Natal, pois como semantica, natal é nataliade, ou nativiade, enfim natal é natalício, embora conheçamos natalinos não tão solidários, e prá fechar natalino como o nome sugere é um acontecimento digno de festejos, sem consumismo, alccolismo, e servlismo dos que faem do cargo como~fêz CAIFÁZ, publicano, fariseu, ou raça de infiéis todos se venmdem por dez mirréis ou um cargo de senhor dos anéis.

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