Editorial
JP, 26 de janeiro
Lemos,
estarrecidos, sobre a existência de um documento de teor racista, assinado por
um capitão da Polícia Militar de São Paulo, Ubiratan de Góes Benducci,
orientado policiais que trabalham no bairro Taquara, região norte de Campinas,
a abordarem com rigor pessoas em atitudes suspeitas, especialmente indivíduos
de cor parda e negra.
O
Comando Geral da PM paulista entende que tudo não passou de um equívoco, pois a
orientação se baseava em denúncias de moradores sobre dois suspeitos de cor
negra. Difícil de acreditar em se tratando de um documento oficial expresso de
forma tão contundente. A história do racismo oficial no Brasil é tão velha
quanto o preconceito, mas naturalmente não se esperava que alguém fosse louco o
bastante para expressá-la dessa forma, ainda mais comprometendo toda a Polícia
Militar de São Paulo.
O
racismo oficial, praticado de forma disfarçada, sempre foi escandaloso nesse
país. Negros são suspeitos, apesar de toda prova em contrário e isso tem origem
no sistema escravocrata que vivemos, nas péssimas condições econômicas que a
raça herdou com o advento da Lei Áurea. Quem viveu os tempos da ditadura
militar no Maranhão lembra perfeitamente que quando a polícia chegava a um bar
ou uma festa revistava primeiro os negros e algumas vezes nem incomodava os
brancos.
Pobreza
não é crime, mas não foi isso que foi incutido culturalmente, durante muito
tempo, nas cabeças da grande maioria das autoridades do país. “Vagabundo, a
gente conhece”, diziam os policiais àquela época e quase sempre esses
“vagabundos” reconhecidos lombrosamente (se nos permitem) eram negros.
É
muito difícil uma real punição, mesmo num caso escabroso como este, num país em
que quem investiga a polícia é a própria polícia. Mas essa coisa tenebrosa,
racista, nazista, colocada num documento oficial, merece um tratamento
diferenciado da sociedade, no final, a ofendida por um preconceito que beira às
raias da demência.
Entidades
de direitos humanos e igualdade racial, naturalmente revoltadas, estão querendo
saber se a orientação também é dada a outros batalhões e pediram os dados
étnicos das vítimas fatais de abordagens policiais registradas como
“resistência seguida de morte”, aliás o mais utilizado artifício de uma polícia
que quer matar.
Este
é um assunto que merece desmesurada investigação porque, além de tudo,
interfere na alma deste país. Toda a dor do racismo, todo o barbarismo dos
preconceitos não pode ficar sob suspeita de que recebe alguma espécie de tutela
do poder público. A índole racista e preconceituosa de alguns, ou de muitos,
tem sido suportada através dos séculos, mas orientações racistas de poder não
poderão ser suportadas. O problema aqui, não é um capitão criminoso, é a
proliferação do ódio e da intolerância na força pública criada para proteger a
sociedade. Isso, o Brasil não pode admitir.
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