Editorial
JP, 15 de janeiro
As
clínicas estão cheias; as prisões também. No noticiário policial, a maioria dos
rostos dos assaltantes aparenta uma jovialidade transgredida pelo consumo de
noites insones e organismos fulminados pela ingestão de entorpecentes. Nas
praças, na periferia das feiras e mercados, nas calçadas dos bares amanhecidos,
mãos sem rugas se estendem para pedir e roubar. Pedir para aplacar a fome de
quem perdeu o lar; roubar para satisfazer a compulsão incontrolável de quem se
entregou ao vício.
Na
manhã de sábado, a manchete do Jornal Pequeno denuncia que a “guerra do
tráfico” fez mais duas vítimas. Mais dois jovens que a sociedade perdeu para o
submundo do crime. Essa história, que não era nossa, porque provincianos e
humildes cultuávamos a poesia, cantávamos cantigas de roda na ante-sala do
século, brincávamos de preto fugido nas ruas mal lavadas e de esconde-esconde
sem a presença da polícia, é a nova história da juventude de São Luís.
As
praças agora se chamam crackolândias. Os tumores vivos passeiam empalados e
quase transparentes, generosamente envelhecidos, mentes embotadas, incapazes de
reagir. Nas bocas de fumo os “viajantes” chegam a pés, maltrapilhos e
convulsos, ou chegam em automóveis brilhantes, bem vestidos e perfumados. Uma
geração morre em praça pública, apesar de todos os esforços do governo, das
igrejas, dos mutirões de cidadania e entidades anônimas. A sociedade trava e
está perdendo uma guerra contra a escravidão. São Luís não é mais criança,
ganhou avenidas largas, edifícios digitais, poetas eletrônicos, administradores
cibernéticos; se desenvolveu para o bem e para o mal. Com o progresso, veio o
tumulto das personalidades desenvolvidas nas metrópoles e megalópoles e junto
com ele o crime organizado, o shopping center no lugar da quitanda, o milk
shake que substituiu o balde de juçara.
E
muito pouco podemos fazer contra as máquinas que falam sozinhas em nossas
salas, que ensinam sobre crime e devassidão e pelos meninos bons que se tornam
meninos maus, enquanto engolem ácido e esquecem as razões de viver. São tantos
os zumbis, as sombras deitadas, as inocências corrompidas, as armas apontadas
que nem parece São Luís. Decaídos, importunos, perigosos, eles mais assustam
que causam piedade. É assim nas ruas, dentro de casa, nas escolas, em qualquer
lugar.
Notícias
de morte e de medo estão em todas as páginas, todos os dias e impotentes
assistimos uma geração ainda sem nome convalescer. Para enriquecer bandidos,
para tornar os monstros importantes, porque talvez não haja mais uma professora
com a palmatória em uma das mãos e a taboada na outra e agora são psicólogos,
psiquiatras punindo com pílulas e terapia ocupacional. Porque talvez tenhamos
aprendido demais sobre futuro e muito pouco sobre o passado, São Luís não é
mais criança.
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