Editorial
JP, 9 de janeiro
Ficaram
as lagostas, os bacalhaus, os salmões, vinhos e champagnes e foram-se os
comensais. Ficaram as dívidas, o déficit na segurança pública, o déficit na
educação, na saúde e os bólidos cortaram o ar partindo do Maranhão para os
Estados Unidos. Ficaram os cofres vazios, os estudantes no chão, as obras
inacabadas e as superfaturadas e eles partiram, coloridos, ricos, felizes,
distraídos para a platinada Miami.
Na
terra de todos os ricos, nem sentem saudades do povo empobrecido que ficou
aqui; nem querem saber como será feito para recuperar o Estado, devolver sua
dignidade, colocar o Maranhão nos trilhos do desenvolvimento, do progresso, por
fim à pobreza absoluta, reativar a agricultura desprezada, cortar gastos
estratosféricos com propagando oficial. Só querem passear, viver uma vida de
primeiro mundo e, quem sabe, até esquecer o reinado que tomaram e solaparam no
Maranhão.
É
hora de caminhar na cidade das águas, de nadar, de surfar na temperatura agradável
das águas cristalinas do Oceano Atlântico, de sonhar na areia, estarrar-se no
Metropolitan sem nenhuma preocupação com denúncias, discursos, jornalistas,
promotores, juízes, cada vez mais convencidos do “Direito Divino dos Reis”.
Nessa
terra mágica, ninguém os incomodará se acaso se alimentarem de lagostas e
iguarias importadas; ninguém os acusará de dar sumiço em banheiros e estradas
vicinais, pois que habitam agora um mundo de mármore, sem cheiro de pobreza,
sem crianças sem escolas, sem hospitais entupidos, sem essa proliferação de
pacientes acusando o governo de não trabalhar.
Chegaram,
finalmente, ao balneário dos príncipes, onde as águas não são sujas e os
coliformes descem para onde têm que descer. Viver em Miami, longe de São Luís,
longe de Brasília, o mais distante possível da Justiça Federal. Quem sabe até
se candidatarão aqui e aqui também se tornarão reis e rainhas, nessa terra sem
protestos, sem atos públicos, sem policiais revoltados e professores brigando
por melhores salários e lavradores querendo mais apoio à agricultura familiar.
A
“Conexão Miami” torna-se, assim, o sonho de liberdade de quem nunca esteve
disposto a governar, mas sempre esteve disposto a ficar ricos até não caber
mais.
Sem
coroa, nem cetro, mas ainda com grande parte do tesouro é, porém, melhor não
esquecerem que aqui também ficaram suas dívidas com a Justiça, que o que
receberam das lavanderias ainda pode ser cobrado. Miami Beach, na proximidade
dos paraísos fiscais, talvez não seja um refúgio tão seguro quanto julgam, pois,
apesar da distância, essa cidade também está no caminho da Interpol.

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