JM Cunha Santos
Ágathas morrem todos os dias, todas as noites, no mundo todo. Ágathas
morrem de solidão infantil, de abandono sincronizado, de orfandade mórbida.
Morrem vítimas da fome, morrem de silêncios não saudáveis, de educação mal
educada no país.
Ágathas morrem nas farmácias, nos hospitais, nas igrejas, nos braços do
Cristo revoltado. Ágathas morrem de sorriso incandescente, morrem das lamas das
ruas, de lavouras não permitidas, de palidez provocada. Ágathas morrem antes de
nascer.
Quando as balas se perdem da fúria dos homens encontram seus corpos,
quando lágrimas procuram olhos, encontram seus pais. Ágathas não tem muita
importância para os fuzis nem para os fuzileiros. Elas apenas absorvem um ódio
que não é delas, é dos adultos e, por isso, não lhes é permitido crescer.
Ágathas morrem de falta de energia, de falta d’água, de ausência de
compaixão. Morrem, porque se crescerem vão querer ser livres e os homens
criados em vidros de formol odeiam a liberdade. Morrem porque sorrisos são
ameaças em terras onde os tiroteios são sorrisos.
Ágathas morrem atracadas a bonecas, morrem sem subir nas árvores nem
molhar as plantas, colhendo as rosas de chumbo da condição humana. Morrem
porque existir é também uma forma de dor. E, porque aqui não há paraísos, só
infernos, morrem também de saudades do céu.
Mas a cada vez que uma Ágatha morre, a humanidade se diminui, se
encolhe, até sumir no universo do mal.
Ágathas morrem todas as horas, morrem
de tudo, morrem até de querer viver. E também morrem assassinadas pelo poder
público no Brasil.

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