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domingo, 9 de julho de 2017

A mercantilização dos sentimentos

Por Joilson S. Aguiar *


Estamos vivendo num mundo de vazio, um mundo em que parece não haver sentido, um mundo de falta, um mundo de desorientação generalizada onde o homem se encontra perdido e desamparado, sem rumo em sua própria existência. As bússolas que outrora lhe orientavam encontram-se com os ponteiros enferrujados e não apontam mais para nenhum lugar; o homem está entregue a sua própria sorte, e eis a natureza trágica da problemática humana: angustiar-se, sofrer e haver-se consigo mesmo.
O místico não consegue mais explicar os fenômenos sociais e naturais através de ordens e origens divinas. A metafísica com suas reflexões sobre a essência abstrata das coisas não consegue aplacar os inúmeros questionamentos que surgem a cada explicação, quando o método científico com leis universais que explicariam todos os fenômenos da existência humana, com seu saber racional, poderia mensurar, testar e diagnosticar todos os fenômenos da natureza humana.
A ciência agora proporcionaria ao homem conhecer a si mesmo. Ledo engano, a dor de existir não tem cura e nem diagnóstico e os mistérios da vida são indecifráveis.  
Parece haver uma predisposição instintiva, inata no homem para uma necessidade de servidão voluntária, de se entregar ao outro para servi-lo e um desejo latente de não responsabilizar-se por si mesmo, por suas vontades e desejos sempre tentando responsabilizar o outro por suas faltas. Esse sujeito desejante, incapaz de arcar com as consequências de seu desejo, abdicou as rédeas de sua existência e outorgou ao grande leviatã a sua alma. O homem contemporâneo parece não suporta viver a vida tal como é, e incessantemente tem narcotizado seus sentimentos e sua dor, não se permitindo sentir a vida. A sua incapacidade de viver abriu a caixa de pandora e todos os males da existência humana estão sendo medicalizados com as chamadas pílulas da felicidade. Vivemos a era da medicalização da alma. A triste e fatídica verdade é que todos os sentimentos humanos estão catalogados como patologias em um manual psiquiátrico chamado de DSM-5, a bíblia dos psiquiatras; somos todos loucos segundo este manual.
O homem contemporâneo, ao que parece, elegeu os fármacos como o deus do século XXI. Acredito que nunca se viu em toda história da humanidade civilizações serem transpassadas e acometidas pelas mais diversas formas de sofrimentos psíquicos como neste século. Este sujeito que claudica nesta realidade utópica e que não consegue se adaptar a ela, se encontra desamparado. Por ver suas muletas se quebrarem por ser frágil, esse sujeito foi reduzido a uma unidade neurofisiológica e suas múltiplas formas de subjetivação foram relegadas ao nada, seus sentimos e os mais “naturais” de seus comportamentos agora são as novas patologias do mundo contemporâneo e estão passiveis de tratamentos medicamentosos, as indústrias farmacêuticas conseguiram transformar todo e qualquer sentimento em patologias. O que nos resta então? O que nos cabe fazer de nós mesmos? Teria esse século cura ou diagnóstico? Sou pessimista quanto a qualquer forma de solução que diga que o homem possa ser um animal civilizado, talvez a solução fosse nascermos novamente e não sentirmos mais a vida.

* Filósofo e Graduando de Psicologia.

Um comentário:

  1. Um texto soberbo sobre a condição humana e a crise existencial moderna.

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