JM Cunha Santos
Estou na tralha, na maior pindaíba, colando dinheiro com fita isolante, lambendo tampa metálica de iogurte, colando bombril na antena da TV, tomando sol na represa, indo pra praia em dia de chuva, rifando caixa de chocolate, calçando sofá sem perna com tijolo, balançando lâmpada queimada, amarrando perna de óculos com arame, lavando fralda descartável. E se querem mais sinais de pobreza, não posso ver carro da Cemar que entro em choque.
Coisas do dia a dia de escritor sem patrocínio e sem nome nacional, que se diverte dizendo o que é para ser dito e não o que os outros querem ler ou ouvir. E, no entanto, a caminho da minha casa há tantos e tantos mais pobres do que eu que sequer compreendo como sobrevivem nesta terra onde tão poucos têm muito e muitos não tem nada. E é gente de profissão importante para a sobrevivência humana, como lavradores, hoje urbanizados, sem os quais não haveria arroz com feijão na mesa e pedreiros, sem os quais os doutores viveriam ao relento.
Na verdade, não sei se quero discutir sobre profissões, só não entendo porque algumas, de serventia um tanto quanto duvidosa, são tão bem pagas enquanto outras, das quais depende nossa própria vida, são pagas com salários de fome. Mas de não entender não é só eu que entendo e por isso a roda do mundo se move apesar de mim e dos chatos dos meus credores, principalmente aqueles que descobriram o número dessa infernal máquina dedo-duro que carrego, chamada telefone celular. Ligam tanto que os que ligam para me pagar encontram sempre a linha ocupada.
Eu sei que esse pode ser encarado apenas como mais um esforço, de mais um caloteiro descarado não querendo pagar as contas. Mas não é não. É apenas o nascimento de mais uma atividade filosófica que, sob os auspícios de um poeta liso, se chamará “Desiludismo”. Eu não iludo meus credores dizendo que vou pagar e eles não se iludem pensando que vão receber. E eu também não alimento a ilusão de que vou ganhar algum aumento salarial. Em contrapartida, meus filhos perdem a ilusão de que podem estudar em faculdade particular, estudam de verdade e passam no vestibular. E minha mulher para de pensar que tem sangue azul, desiste do cabeleireiro, da ginástica, dos pilates, da natação, do cirurgião plástico e até da manicure e todos nós engordamos juntos, bem alimentados com as unhas cheias de farinha de puba, os cabelos com cheiro de peixe seco e a lembrança entupida de filé.
Mas acho que acabei misturando as coisas. É quase certo que nunca houve um estudo filosófico sobre o calote. Não sei porquê. Afinal de contas, os maus pagadores são uma referência nacional e aqueles sinais de pobreza a que me referi lá em cima estão na maioria dos lares brasileiros... (Alô... Passa na sexta-feira).

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