sábado, 13 de março de 2010

SEXINSÔNIA
JM Cunha Santos

Desvairado humano que de mim se avizinha

fantasma imperfeito, sobra de contrição,

não sei se a alma no chão é tua ou é minha

não lembro a qual de nós pertence o coração

que ronca sem parentes, qual galo numa rinha

e se contrai mal feito, presa de um arpão


Não sei, oh fogo fátuo que à noite me segue,

quem de nós sobrará vivo ao porvir

qual se venderá a este povo que não serve

qual de nós ao outro não permite mais dormir

Se um, nós somos dois – o diabo te carregue

- Permita-me apenas o sublime de cuspir


sobre a clava na cabeça ora dispensada

por estrelas e cometas em fagulhas

a mais ainda atrapalhar a carne já cansada

que se repete à oratória de alguns pulhas

que sendo apenas carne não é quase mais nada

deitada sobre pregos, facas, tripas e agulhas


Desfalecer, qual anjos tortos em barulho

é sonho que não ousa nem sequer amanhecer

a carne cortada em postas - o sexo é o bagulho

de quem não dorme e sonha se desfalecer;

é o poeta a se tornar seu próprio entulho

e a entulhar-se, lixo pouco de seu próprio ser


E eis que em ti dói bem mais a pulga que a valsa

no travesseiro a esfarelar-se em compulsão

paixões inteiras escondidas sobre a calça

de quem se despe em colóquio com um cão

e bate os pés dançando, quedo, a mesma salsa

que toca no tambor de cor azul da sensação


Passar a noite qual mulher quase parindo

sem dia no outro dia escuro da cidade

e um povo, escadeirado, fora da janela, rindo

de tão falível paz, de tão tamanha enormidade,

esta de loucos a se comer se destruindo

enquanto, quase triste, eu estico a eternidade


Oh silêncio que grita como tuba nos ouvindo

- milhões de grilos cantarolando em suas veias

no ritmo das pragas a zunir se consumindo

e a mesma aranha construindo as mesmas teias

sobre séculos de dor no quarto se espargindo

- E ele bebe cal, com solidão, tintas e aveias


Dorme, senil Senhor, que a muriçoca te embala

dorme, que o mundo inteiro já finge sumir

dorme, que lá fora a humanidade troca bala

e, embora não sendo humano, tu podes fluir;

engole essa canção que no peito te empala

e faz da morte certa uma forma de dormir


Não foge à concupiscência neutra de teus zelos

não rende-te aos apelos desastrados das paixões

não há como viveres sem teus pesadelos

não há como viveres sem tuas alucinações

sem todos estes bichos que brincam nos teus pelos

sem as traças que nas noites consomem decisões!


De pensar, talvez, nas dores todas deste mundo

e sucumbente refletir sobre a fatal legalidade

nada no teu sono será senil e mais imundo

que navegar no barco sujo da igualdade.

És filho da esquerda mão de um Deus profundo

que insiste em encolher ainda mais tua eternidade


Vê que a manhã se aproxima lenta e perigosa

logo mais não haverá razões de amanhecer

não haverá poemas, não sobrará nenhuma prosa

num dia a mais em que te obriguem a revolver

teu ato sexual (em que somente o diabo goza)

quando a noite come o que sobrou do entardecer!

3 comentários:

  1. Meu querido,
    passo para deixar uma FELIZ PÁSCOA, renovada no AMOR e na AMIZADE, a você e a todos que fazem parte do seu caminhos.

    Beijinhossssssssss

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  2. Amigo o que aconteceu contigo????
    Abraços

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