segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

MISSA DE ÚLTIMO DIA
JM Cunha Santos


Para onde irei?

Estou saindo da primeira missa

de último dia de minha vida.

Meu carro ronca pornografias

Alguém sem binóculos sabe quem sou eu

Meu nome está proscrito em todas as esperas

Dança uma bandeira rasgada na frente do palácio

(e você é meu motivo para mudar de roupa)

A noite é estúpida; a noite sempre me parece

estúpida quando não quer a madrugada.



Para onde fugirei?

As pessoas me cumprimentam porque sou uma estaca

Os homens bons querem apertar minha mão

Querem que eu tenha religião e ajude pessoas

Que eu seja famoso, faça versos e leia Bíblias

Mas não passo de um insulto para a Criação.

Dirijo como quem vomita a História

As luzes me cortam em pedaços

O vento pára em meu rosto (e vive!)

Jogo um afeto pela janela. Ninguém junta.



Para onde irei?

Preciso de outro corpo. Este é velho e feio.

Mas gosto nele das marcas de guerra

Do que sobrou de esperma, de sua posteridade viva

Porque me querem bom? Não sou bom. Sei matar

e cuspir sangue e vender mentiras e lógicas.

Meu carro torce e se contorce na direção de um cabaré.

Vou atrás dos ossos das moças velhas que não viraram mães

Vou encontrar garrafas mortas e beber flores brancas.

A hora do meu enterro está chegando

e não há mais tempo de viver.



Para onde fugirei?

Não quero apertar mãos, nem dar bom dia

Não sinto vontade de ser afável, nem gentil

Incomoda-me o carinho e o respeito das pessoas

Irrita-me profundamente que me amem e queiram amor

(E que olhem para a minha camisa e para os meus sapatos)

Para onde fugirei?

Preciso escapar desses abraços e sorrisos

Antes que seja tarde e me dêem beijos

E me ofereçam crianças e desejem sucesso

Antes que saibam que eu coleciono segredos

Antes que eu saiba pra onde ir

Antes que tenha para onde fugir.

4 comentários:

  1. Parabéns!!! Você, Cunha, é um excelente poenta, além de ser excelente cronista e jornalista. Muito bom.

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  2. Obrigado, amigo Caio. A recíproca é verdadeira.

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  3. Isso é que é um elogio, Anônimo. Muito obrigado.

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