JM Cunha Santos
Para onde irei?
Estou saindo da primeira missa
de último dia de minha vida.
Meu carro ronca pornografias
Alguém sem binóculos sabe quem sou eu
Meu nome está proscrito em todas as esperas
Dança uma bandeira rasgada na frente do palácio
(e você é meu motivo para mudar de roupa)
A noite é estúpida; a noite sempre me parece
estúpida quando não quer a madrugada.
Para onde fugirei?
As pessoas me cumprimentam porque sou uma estaca
Os homens bons querem apertar minha mão
Querem que eu tenha religião e ajude pessoas
Que eu seja famoso, faça versos e leia Bíblias
Mas não passo de um insulto para a Criação.
Dirijo como quem vomita a História
As luzes me cortam em pedaços
O vento pára em meu rosto (e vive!)
Jogo um afeto pela janela. Ninguém junta.
Para onde irei?
Preciso de outro corpo. Este é velho e feio.
Mas gosto nele das marcas de guerra
Do que sobrou de esperma, de sua posteridade viva
Porque me querem bom? Não sou bom. Sei matar
e cuspir sangue e vender mentiras e lógicas.
Meu carro torce e se contorce na direção de um cabaré.
Vou atrás dos ossos das moças velhas que não viraram mães
Vou encontrar garrafas mortas e beber flores brancas.
A hora do meu enterro está chegando
e não há mais tempo de viver.
Para onde fugirei?
Não quero apertar mãos, nem dar bom dia
Não sinto vontade de ser afável, nem gentil
Incomoda-me o carinho e o respeito das pessoas
Irrita-me profundamente que me amem e queiram amor
(E que olhem para a minha camisa e para os meus sapatos)
Para onde fugirei?
Preciso escapar desses abraços e sorrisos
Antes que seja tarde e me dêem beijos
E me ofereçam crianças e desejem sucesso
Antes que saibam que eu coleciono segredos
Antes que eu saiba pra onde ir
Antes que tenha para onde fugir.
Parabéns!!! Você, Cunha, é um excelente poenta, além de ser excelente cronista e jornalista. Muito bom.
ResponderExcluirArre égua Cunhete!
ResponderExcluirObrigado, amigo Caio. A recíproca é verdadeira.
ResponderExcluirIsso é que é um elogio, Anônimo. Muito obrigado.
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