Editorial,
Jornal Pequeno, 31 de janeiro
Para
o leigo, que à distância acompanha crimes e prisões e o tratamento a eles dados
pela imprensa, fica difícil entender o comportamento da Justiça, decisões
tomadas que deixam confusa a população, a tramitação de um processo penal, a
libertação de gente cruel, assassinos ou supostos assassinos respondendo por
seus crimes em liberdade.
O
princípio em voga de que todos devem ser preservados inocentes até o trânsito
em julgado de um processo, o instituto da prisão somente em flagrante delito,
mesmo quando há testemunhas de sobra de um crime, não são bem absorvidos por
aqueles que não conseguem encarar o Direito como ciência. Mas há tais
aberrações em torno de alguns julgamentos e decisões que deixam a sociedade
desconfiada de que no mínimo a Justiça está sendo injusta.
Soubesse
o vulgo que detalhes técnicos conhecidos apenas pelos estudiosos do direito
penal podem por em liberdade os bandidos mais raivosos e esse nível de decepção
com a Justiça se elevaria ainda mais; soubesse que ainda na delegacia um
inquérito pode ser montado (viciado) de forma favorecer a defesa e deixar o
juiz sem outra saída que não seja decidir favoravelmente ao criminoso,
arrancaria os cabelos.
Um
fato recente neste aspecto foi a suspensão em torno das oitivas do assassinato
do jornalista Décio Sá. As testemunhas de acusação não foram ouvidas porque a
Justiça entendeu que o acusado Ronaldo Ribeiro não teve acesso aos autos do
processo. E cria-se o temor de que os acusados do crime que mais repercutiu nos
últimos anos no Maranhão sejam beneficiados com a precarização de uma decisão
judicial e acabem respondendo pelo crime em liberdade.
A
decisão de suspender as oitivas das testemunhas, prolatada pelo desembargador
Raimundo Nonato de Sousa, é considerada absurda nos meios jurídicos, pois
poderia força a expedição de um habeas corpus em favor de todos os acusados por
simples decurso de prazo da prisão provisória. Absurdo para o leigo,
entretanto, para o vulgo que acompanha o desenrolar desse bárbaro crime, será
ver livres seus protagonistas por conta de um detalhe técnico que pode ter sido
intencionalmente provocado. Tanto que o Ministério Público já recorreu no fito
de evitar a libertação de Gláucio Alencar, Júnior Bolinha e, quem sabe, até do
carniceiro Jonathan Silva.
Houve
um tempo em que a Justiça, mesmo no trâmite de suas funções mais esquisitas,
levava em consideração a comoção social provocada por um crime. E não
conseguimos lembrar de crime que mais comoção tenha provocado no Estado que o
assassinato desse jornalista.
Estamos
tratando com criminosos ricos; tão ricos que emprestavam dinheiro para a grande
maioria dos prefeitos do Maranhão. Estamos tratando com gente poderosa; tão
poderosa que comandava um esquema de agiotagem nas barbas da Justiça e da
Segurança Pública. Se a sociedade não reagir a decisões como esta, o crime pode
cair no esquecimento e os assassinos de Décio Sá nem serão punidos. Até que
outro jornalista caia crivado de balas e algum advogado se esqueça de novo de
ler os autos.
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