JM
Cunha Santos
I
Sobrou-me,
então, uma única bola colorida
numa
árvore de natal sem galhos nem raízes
uma
rena de perna quebrada, nenhuma estrela guia que me guiasse a lugar nenhum
Sobrou-me
um trenó, um único trenó parado na oficina
e
uma criança que escrevia sem saber o endereço de Papai Noel
Sobrou-me
uma única lâmpada acesa nas ruas escuras
e
o único enfeite nas praças era um rosto chorando de amor
De
presente, recebi um ventilador de duas velocidades quando aprendi que todo
sorriso tem um preço
II
Sobrou-me
um presépio sem santos nem manjedoura e um jumento santificado que,
infelizmente, empacou
Na
ceia, uma única taça de vinho ficou esperando por um visitante que não viria
jamais
Ninguém
desceu pela chaminé, ninguém encontrou os meus sapatos
Todos
os amigos estavam ocultos
O
ouro na minha casa era alquimia, o incenso e a mirra cheiravam a saudades
e,
para desespero da minha fé tão pouca, todos os Herodes me encontraram
Não
vi pais, não vi mães, só credores estendendo as contas dos meus pecados
Somente
perus bêbados, rindo dos destroços da minha
alma infantil
e
um boneco de neve afogado em lágrimas e incertezas gritando por Santa Clauss
Foi
assim a noite de Natal: sem árvores, sem luzes, sem sinos, sem presentes, sem
cores
apenas
com a esperança cozida de que dias melhores virão
e
de que, com a mesma garganta de hoje, um dia talvez eu também possa cantar
Jingle Bell

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