quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

NATAL CORPORATION

JM Cunha Santos



I

Sobrou-me, então, uma única bola colorida
numa árvore de natal sem galhos nem raízes
uma rena de perna quebrada, nenhuma estrela guia que me guiasse a lugar nenhum
Sobrou-me um trenó, um único trenó parado na oficina
e uma criança que escrevia sem saber o endereço de Papai Noel
 
Sobrou-me uma única lâmpada acesa nas ruas escuras
e o único enfeite nas praças era um rosto chorando de amor
De presente, recebi um ventilador de duas velocidades quando aprendi que todo sorriso tem um preço
II
Sobrou-me um presépio sem santos nem manjedoura e um jumento santificado que, infelizmente, empacou
Na ceia, uma única taça de vinho ficou esperando por um visitante que não viria jamais
 
Ninguém desceu pela chaminé, ninguém encontrou os meus sapatos
Todos os amigos estavam ocultos
O ouro na minha casa era alquimia, o incenso e a mirra cheiravam a saudades
e, para desespero da minha fé tão pouca, todos os Herodes me encontraram
 
Não vi pais, não vi mães, só credores estendendo as contas dos meus pecados
Somente perus bêbados, rindo dos destroços da minha  alma infantil
e um boneco de neve afogado em lágrimas e incertezas gritando por Santa Clauss
 
Foi assim a noite de Natal: sem árvores, sem luzes, sem sinos, sem presentes, sem cores
apenas com a esperança cozida de que dias melhores virão
e de que, com a mesma garganta de hoje, um dia talvez eu também possa cantar Jingle Bell

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