Editorial
JP, 24 de dezembro
Se
para o filósofo nipo-americano Francis Fukuyama o fim da Guerra Fria poderia
representar o fim da História, talvez caiba provincializar essa tese em termos
de Maranhão e indagar como reagirão as instituições públicas, os advogados,
promotores, juízes, associações e políticos ao fim da era Sarney.
Sabemos
que, na esteira de todas as improbidades permitidas, as instituições públicas,
sob domínio de meio século de uma única família, pouco ou quase nada de bom
geraram em termos de ética e dignidade. Uma pergunta inevitável é se será
possível congelar a corrupção pré-existente como condição cultural no Estado,
esvaziar, por exemplo, a mentalidade dos prefeitos que vêem como únicas formas
de se manterem no poder a agiotagem e o escambo eleitoral com recursos
públicos.
A
tarefa dos sucessores da era Sarney é gigantesca: organizar social, econômica e
politicamente, a partir de novos propósitos e resguardando princípios, o Estado
do Maranhão. A diferença é que aqui não se trata de uma tese que possa ser
contestada ou aplaudida, mas da aspiração de 7 milhões de pessoas e que se
concretizou com a eleição de Flávio Dino, mas que, para ser mantida, precisará
do esforço conjunto e da compreensão de toda a sociedade maranhense.
Para
Fukuyama, o declínio dos regimes fascistas e comunistas garantiu o triunfo do
sistema capitalista – o liberalismo ocidental que exportou o consumismo para a
China e para a Rússia. O provinciano e diminuto Maranhão, entretanto, lida com
questões mais práticas. Tem gente precisando comer, gente precisando estudar,
gente precisando de mais saúde e segurança. Ele tratava do fim da História; nós
temos uma História para começar. Vamos precisar, inclusive, construir uma nova
consciência política no Maranhão. E isso é apavorante porque talvez não dependa
apenas de vontade.
Um
aforismo keynesiano afirmava que “a longo prazo, todos nós estaremos mortos”.
Mas o que, de toda essa filosofia política que arrancou do poder a família
Sarney, será possível realizar a curto prazo?
Alguns
haverão de achar absurda essa comparação que envolve as grandes potências do
mundo e o provinciano Estado do Maranhão. Mas um Estado que passou tanto tempo
na condição de celeiro de todas as pobrezas e quase campeão de corrupção no
Brasil, precisa estar atento à História. O Estado mais pobre do Nordeste
brasileiro é, sem dúvidas, um dos estados mais pobres do mundo. Nem mesmo
direito à liberdade, na acepção universal da palavra, e à democracia limpa
podemos dizer que tivemos. E é assustador pensar que talvez não sejamos mais
capazes de conquistar nada disso.
A
verdade é que não podemos acreditar que é possível reconstruir o Maranhão
política e administrativamente a curto prazo, nem esperar estar mortos para
incendiar essa realidade. Precisamos começar nossa História. Para tanto, a
primeira atitude é decretar o fim da improbidade.
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