JM
Cunha Santos
Um
atentado terrorista, em Paris, fere o próprio coração da democracia mundial.
Paris, afinal, sempre foi uma espécie cidade símbolo de todas as liberdades,
uma espécie de celeiro de todas as filosofias, um parnaso da criatividade e das
ciências humanas. Do anarquismo ao socialismo, de Baudelaire a Victor Hugo,
todas as idéias de libertação, se não nasceram, sentiram vontade de nascer em
Paris.
Um
atentado terrorista, em pleno século 21, contra um órgão de imprensa, na Paris
dos grandes filósofos humanistas, de Jean Paul Sartre, de Joseph Prodhon,
assusta o Ocidente. E não nos parece que tenha sido apenas obra de fanáticos
religiosos ou de moralistas ensandecidos, mas de gente que guarda algum tipo de
preconceito contra a arte, contra a palavra e a capacidade de criar do ser
humano.
Pior
é pensar em quantas são as formas de terror contra a liberdade de imprensa e a
liberdade de expressão. Se enfrentamos o terror oficial advindo da censura que
impõe a auto-censura, da violência das polícias políticas, da eliminação física
pura e simples de filósofos, artistas, jornalistas, poetas e até mesmo rebeldes
sem causa, deparar, neste início de século, com o terror das armas que nas mãos
dos covardes explodem o silêncio é, como classificaram muitos líderes mundiais,
uma história de horror.
O
tornar-se gente não é apenas nascer, é também despertar para o fato de que
precisamos aprender a conviver com nossas diferenças, é permitir o espaço do
outro, é alimentar-se do bem e nunca, em nenhuma hipótese, tentar impedir outra
pessoa humana de pensar.
No
entanto, bombas explodem pessoas, mas não explodem idéias, metralhadoras e
fuzis não matam pensamentos, revólveres são incapazes de deter a criação.
Pensem
em como seria esse mundo sem os Gandhi e Luther King assassinados; por exemplo,
como estaria o Brasil sem os temerários que à frente de tanques e fuzis saíram
às ruas, sob o sacrifício de suas próprias vidas, gritando por liberdade.
Dispararam não somente contra homens, mas contra o sonho de Voltaire: “Posso
não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito
de dizer”. E podem apostar que foi contra o pensamento livre que criaram as
armas, todas as armas.
Paris
está de luto, a democracia está de luto, a liberdade está de luto, o mundo, a
arte, o jornalismo, a filosofia, a poesia também. E o terror, oficial ou não,
sobrevive apenas para atacar o direito de criar e de dizer. Fora disso, não
podem fazer mais nada. Vamos continuar pensando.
Mas
que traços podem ser feitos em poças de sangue, que palavras podem ser ditas de
dentro de um canhão? Só o que sinto diante dessas bestas assassinas é vontade
de morrer de solidão.

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