quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

TERROR EM PARIS

JM Cunha Santos

 
Um atentado terrorista, em Paris, fere o próprio coração da democracia mundial. Paris, afinal, sempre foi uma espécie cidade símbolo de todas as liberdades, uma espécie de celeiro de todas as filosofias, um parnaso da criatividade e das ciências humanas. Do anarquismo ao socialismo, de Baudelaire a Victor Hugo, todas as idéias de libertação, se não nasceram, sentiram vontade de nascer em Paris.
Um atentado terrorista, em pleno século 21, contra um órgão de imprensa, na Paris dos grandes filósofos humanistas, de Jean Paul Sartre, de Joseph Prodhon, assusta o Ocidente. E não nos parece que tenha sido apenas obra de fanáticos religiosos ou de moralistas ensandecidos, mas de gente que guarda algum tipo de preconceito contra a arte, contra a palavra e a capacidade de criar do ser humano.
Pior é pensar em quantas são as formas de terror contra a liberdade de imprensa e a liberdade de expressão. Se enfrentamos o terror oficial advindo da censura que impõe a auto-censura, da violência das polícias políticas, da eliminação física pura e simples de filósofos, artistas, jornalistas, poetas e até mesmo rebeldes sem causa, deparar, neste início de século, com o terror das armas que nas mãos dos covardes explodem o silêncio é, como classificaram muitos líderes mundiais, uma história de horror.
O tornar-se gente não é apenas nascer, é também despertar para o fato de que precisamos aprender a conviver com nossas diferenças, é permitir o espaço do outro, é alimentar-se do bem e nunca, em nenhuma hipótese, tentar impedir outra pessoa humana de pensar.
No entanto, bombas explodem pessoas, mas não explodem idéias, metralhadoras e fuzis não matam pensamentos, revólveres são incapazes de deter a criação.
Pensem em como seria esse mundo sem os Gandhi e Luther King assassinados; por exemplo, como estaria o Brasil sem os temerários que à frente de tanques e fuzis saíram às ruas, sob o sacrifício de suas próprias vidas, gritando por liberdade. Dispararam não somente contra homens, mas contra o sonho de Voltaire: “Posso não concordar com nada do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizer”. E podem apostar que foi contra o pensamento livre que criaram as armas, todas as armas.
Paris está de luto, a democracia está de luto, a liberdade está de luto, o mundo, a arte, o jornalismo, a filosofia, a poesia também. E o terror, oficial ou não, sobrevive apenas para atacar o direito de criar e de dizer. Fora disso, não podem fazer mais nada. Vamos continuar pensando.  
Mas que traços podem ser feitos em poças de sangue, que palavras podem ser ditas de dentro de um canhão? Só o que sinto diante dessas bestas assassinas é vontade de morrer de solidão.

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