ÀS VEZES A FÉ TAMBÉM PRECISA DE CERTEZAS
JM Cunha Santos
JM Cunha Santos
Capítulo 3
A gente amarga das ruas
Eu tinha acompanhado O
Semeador a um Cantinho de Luz onde, com a propriedade dos que se dedicam a
fazer deste um mundo melhor de se viver, entusiasmando o amor, o trabalho e a
caridade, estabelecera, em suntuosa palestra, a diferença básica entre a Lei de
Ação e Reação, de Isaac Newton, e a Lei de Causa e Efeito, esta última
apresentada como passagem entre as diversas encarnações que vivemos e teoria
esclarecedora dos sofrimentos que causamos a nós mesmos.
De casa, e mais uma vez
espectro, desmembrei-me até o Planeta Senegê, um inferno que me pareceu muito
similar ao em que tenho vivido. A gente amarga das ruas era a mesma: corações
empedrados volatilizavam a piedade, o ódio se materializava nos rostos e nas
mãos, parecia de mármore, quase podia ser tocado; a inveja tinha cor, tinha
mente e consciência; a soberba pulava, vivia e disparava cancros e o egoísmo
matava de fome e solidão os mais enfraquecidos.
Mas o canto de amor do
Semeador naquela palestra não me deixava as entranhas, a viagem majestosa no
Cosmos, o Evangelho esbandalhado pela ação humana, a presciência de Jesus
antevendo seu próprio e o destino da humanidade: (Pai, afasta de mim este
cálice).
O horror de ver aquela
gente se ferindo, se matando, guerreando, o cheiro repulsivo que exalava de
alguns corações, assentado ali entre criaturas asquerosas e internamente
imundas, violentas contra o próximo e complacentes consigo mesmas, fez-me ver
que às vezes a FÉ também precisa de certezas, não pode ser catatônica,
dogmática, impulsiva e irracional. E, diante de tanta perversão e ignomínia, eu
saudei os Espíritas que, na sala de Ivonne, haviam recolocado minha alma no
lugar.
Dentre os de Senegê,
entretanto, surgiram mais uma vez como aparição Luz Barbuda e Respiração
Evangélica que, ante a minha incompreensão do porquê daquilo tudo, da
existência de tanta maldade inoculada nas pessoas, me disseram:
- Um dia um ser vivo,
humano talvez, Espírito provavelmente, quem sabe um animal refratário,
sentenciou pela primeira vez: “Isto é meu”. E deu início à maldade humana e à
existência de civilizações como essas que abominam o amor entre os homens e o
amor de Deus. Pensei:
- Observando o nível de
crueldade entre os homens, às vezes Jesus Cristo não me parece um ser possível.
Traído, humilhado, chicoteado, lancetado, crucificado e às portas da morte,
orou a mais forte oração do Universo para seus algozes:
- Pai, perdoai-os, eles
não sabem o que fazem.

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