sábado, 1 de dezembro de 2018

OS CÓDIGOS DO MAL

ÀS VEZES A FÉ TAMBÉM PRECISA DE CERTEZAS

JM Cunha Santos


Capítulo 3
A gente amarga das ruas

Eu tinha acompanhado O Semeador a um Cantinho de Luz onde, com a propriedade dos que se dedicam a fazer deste um mundo melhor de se viver, entusiasmando o amor, o trabalho e a caridade, estabelecera, em suntuosa palestra, a diferença básica entre a Lei de Ação e Reação, de Isaac Newton, e a Lei de Causa e Efeito, esta última apresentada como passagem entre as diversas encarnações que vivemos e teoria esclarecedora dos sofrimentos que causamos a nós mesmos.
De casa, e mais uma vez espectro, desmembrei-me até o Planeta Senegê, um inferno que me pareceu muito similar ao em que tenho vivido. A gente amarga das ruas era a mesma: corações empedrados volatilizavam a piedade, o ódio se materializava nos rostos e nas mãos, parecia de mármore, quase podia ser tocado; a inveja tinha cor, tinha mente e consciência; a soberba pulava, vivia e disparava cancros e o egoísmo matava de fome e solidão os mais enfraquecidos.
Mas o canto de amor do Semeador naquela palestra não me deixava as entranhas, a viagem majestosa no Cosmos, o Evangelho esbandalhado pela ação humana, a presciência de Jesus antevendo seu próprio e o destino da humanidade: (Pai, afasta de mim este cálice).
O horror de ver aquela gente se ferindo, se matando, guerreando, o cheiro repulsivo que exalava de alguns corações, assentado ali entre criaturas asquerosas e internamente imundas, violentas contra o próximo e complacentes consigo mesmas, fez-me ver que às vezes a FÉ também precisa de certezas, não pode ser catatônica, dogmática, impulsiva e irracional. E, diante de tanta perversão e ignomínia, eu saudei os Espíritas que, na sala de Ivonne, haviam recolocado minha alma no lugar.
Dentre os de Senegê, entretanto, surgiram mais uma vez como aparição Luz Barbuda e Respiração Evangélica que, ante a minha incompreensão do porquê daquilo tudo, da existência de tanta maldade inoculada nas pessoas, me disseram:
- Um dia um ser vivo, humano talvez, Espírito provavelmente, quem sabe um animal refratário, sentenciou pela primeira vez: “Isto é meu”. E deu início à maldade humana e à existência de civilizações como essas que abominam o amor entre os homens e o amor de Deus. Pensei:
- Observando o nível de crueldade entre os homens, às vezes Jesus Cristo não me parece um ser possível. Traído, humilhado, chicoteado, lancetado, crucificado e às portas da morte, orou a mais forte oração do Universo para seus algozes:
- Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem.

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