quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

SILÊNCIO EM COPENHAGUE

(Uma homenagem do poeta JM Cunha Santos a todos os leitores que acompanharam a coluna no decorrer deste ano, como compromisso pela existência de um mundo melhor de viver para todos, a partir da construção de um novo homem. Feliz Natal e Próspero Ano Novo)
JM Cunha Santos
















1 – Condenados

Eu respiro o que respira

o resto da humanidade rente

ao CLIMA de superlotação, retenho

gases, sumo, silente sacerdote

da celeste pira – é fogo!

queimo o planeta e pago

despesas de horror

em podridão

2 – Minha máxima culpa

Eu puno ursos, pássaros, penso

peixes, planotestes, pago pedágio

do ar piso na constelação

fumo falências, faço fomes,

passo, pleno, pela dor das pestes

irrito Deus, aguo a água, agito

os brônquios – ó visão celeste! –

de um planeta que me cai

da mão

3 – Explosão demográfica

Reviro o mar, visto animais

calço seus couros e gesto o

grafo gastronômico, se cão

consumo, sem um corte,

a amplidão celeste, se céu

já não há mais a norte-sul, a

leste-oeste, na hora de comer/beber

cada bebê é uma multidão

4 – O lucro fácil

É couro, é carne, é cria

espalho espécimes, suicido

a flora, sacrifico seres, serpentes

em cada rei - E reino, rico, repetindo

a estratosfera, estragando estranhos

bichos da atmosfera, esturricando

a terra e congelando o leste

- Sou o dono da lei

5 – Conforto

Aqueço, esqueço, esfrio

aquiescente – a terra emerge

enérgica sem energia uma fração

de segundos seguindo a mata

e mato, queimo, querendo

quilogramas, desmato e mato

de novo a mata que em mim

não mata a solidão

6 – O urro da natureza

Filas frenéticas de filhos

ferindo a floresta – Amazônia

mau, solo sem solução incendeia

a selva, sauna o sêmen, sacrifica

o saco, sem fundo, suga os animais

e silva o silvo oxidando o

ócio objeto de uma natureza

que caiu pra trás

7 – Prostituição tecnológica

Dou-me devasso à devassidão

das divas defloradas

no meu carro híbrido navego,

negro, no meu sangue eólico, o

ético sistólico, o bicho milenar, a

fera industrial, o predador simbólico

que come carne, fruta, alma de gente

e energia solar

8 – Congressos do medo

Atomizo as atitudes, atiço as atas

das reuniões com óleo e nada feito

emito mortes das turbinas, gero

geradores de outras emissões e

nada feito nada faço se fazer confunde

as lâmpadas acesas, as crianças presas

às vastas vistas que não vêem

as vastidões

9 – O poeta tenta dormir

Com calma como coisas de carbono

hidrato as peles postas na poluição e

empurro o impacto da redução

da malha nuclear agricultável

dos habitantes de um planeta seco

e miserável onde uns jantam os outros

e falta ao mundo o oxigênio respeitável

de um coração

10 – Juízo final

Em Copenhague é noite, é noite

na varanda da galáxia e assam-se

sacis e sócios na sociedade do fogão,

no fogo eterno que se espalha de A a Z

o alfabeto da morte pára, para

a multidão engasgada de mortos

e de covardes ainda mais mortos

que conversam sobre morte no Planeta B

Um comentário:

  1. Absolutamente PERFEITO.
    Mais um pouco diria uma Elegia...
    Gosto dos teus poemas!

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