quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Preciso de um milagre...

JM Cunha Santos

Eu me condeno porque me visto, porque me parece injusto o prazer do pano novo, enquanto envolta nos lençóis da distância ela viaja pelo nunca mais; eu me condeno porque trabalho, enquanto, inermes, suas mãos descaroçam o silêncio de um lugar surdo; eu me condeno porque consigo andar, nessas ruas que não aceitam seus pés abandonados nem seus passos jovens; eu me condeno porque sou capaz de rir e rir é o meu crime se ela esquece quase para sempre.
Preciso de um milagre. E se eu tivesse uma santa ou pelo menos um pecador perdoado, plantaria um pé de orações para Larissa, encheria seus olhos de lembranças, sua boca de respostas, seus defeitos de virtudes. Preciso de um milagre. Desses que curam multidões entrevadas, que despacham demônios, que dão vida às desilusões. Um milagre tão grande que jamais se repita na Terra e deixe de joelhos todas as igrejas do mundo.
Cruel de dor, desejo um mundo sem luz onde todos sofram meu sofrimento, onde todas as carnes se repitam nas pedras como hoje minha alma ou o que sobrou dela na vastidão desse purgatório mental. Erraram o alvo - o castigo era meu e não do anjo quebrado. Eu que amei em lugares que não devia, em portas sem trincos, nos quintais onde os ateus sangravam; eu suguei a sujeira impossível de tantos corpos desesperados; eu que vendi minha solidão.
Se pelo menos ela gritasse ou, por via das dúvidas, sorrisse; se pelo menos ela dormisse ou acordasse eu poderia comentar com a multidão.  Se ela respirasse, se ela ouvisse, se ela derramasse ou pelo menos insistisse, seria menos triste parar de morrer.
Se ela amasse ou, em dúvida, odiasse; se ela se movesse ou, pelo menos, parasse, o sangue velho que eu uso poderia desaparecer.
Preciso da minha filha...Sem ela, não tenho o que fazer com tanto amor Preciso de um milagre mas estou tão zangado com Deus que não tenho paciência de pedir. Peçam por mim. Pequem em meu nome.

3 comentários:

  1. Segura aí Cunha, fé força e coragem.

    ResponderExcluir
  2. cunha santos.

    O essencial é invisível aos olhos, só vemos bem com o CORAÇÃO, este é o diálogo da raposa com o pequeno príncipe, ela diz que: quem cativa cuida e le cativou a raposa que até então era sómente caçada e perseguida por caçadores invetredos, sndo assim, atua LARISSA te cativou e agora tens que duidar dela, dando-lhe carinh, amor quintessenciado que só os grandes amores sabem construir e que DEUS te abençoe e a LARRISSA.

    ResponderExcluir