sábado, 15 de novembro de 2014

Dez milhões, R$ 10 bilhões

Editorial JP, 15 de novembro



 
Existem, ainda, 10 milhões de miseráveis no Brasil, segundo divulgou o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada. E a vontade é confrontar esse número com o brutal esquema de corrupção que garfou da Petrobrás algo em torno de 10 bilhões de reais. Querem, alguns, que o povo se conforme com isso e outros defendem que se mantenham as alianças políticas com o governo e os partidos que provocaram tamanha sangria nos cofres da Nação.
A todo dia surgem nomes novos e ontem mesmo a Polícia Federal cumpriu 85 mandados de busca apreensão e prisão em 5 estados. As prisões, em geral, são temporárias ou preventivas, ou seja, com data marcada para que se esvaziem as cadeias. E os nomes dos principais que se apropriaram de tão astronômica quantia nem podem ser divulgados. Nem se quer temos o direito de conhecer a fundo a real situação, hoje, da Petrobrás. Mas sabemos de cor os efeitos da indigência, da miséria, sobre as famílias dos 10 milhões de miseráveis que no Brasil vagam nos lixeiros, sem alimento, educação, saúde, emprego, nenhum dos mínimos para que alguém se sinta, de fato, um ser humano.
A contar-se tanto dinheiro em leite para as crianças, em cestas básicas, somado aos outros bilhões da incalculável sangria que promovem nos cofres públicos e o mais provável é que não haveria mais miséria, nem fome, nem falta de saúde e educação. O tamanho desse crime só pode ser medido em violência, insegurança e no desespero de uma juventude que, entregue às drogas e ao tráfico, se mata em praça pública. Não podemos compactuar com isso, se os únicos inocentes dessa história mal têm o que comer e morrem em macas nos corredores dos hospitais e talvez nunca aprendam a ler.
Só se pode chamar isso de chacina programada, pois o horror de quem assiste um filho disputando sobras com os urubus nos lixões das capitais do país, para que alguns se refestelem em mansões de mármore, tangidos pela mais incompreensível ganância, é apenas isso: um horror.
Apesar das prisões, do ritmo frenético das investigações e da determinação da Justiça Federal, é impossível não perceber a tendência da sociedade brasileira em ser complacente com esse tipo de crime. Mas é revoltante ver que 10 milhões de almas humanas no Brasil vivem na mais absoluta miséria quando sabemos que existem recursos no país para salvá-los a todos de uma vez.
Existe na Justiça brasileira todo tipo de recurso para garantir a impunidade. E, embora nos lave a alma ver esses “ali babás” engravatados sendo conduzidos para a prisão, é certo que eles não vão ficar muito tempo por lá. Os 10 milhões de miseráveis encontrados pelo IBGE, no entanto, vão continuar aqui, com fome e talvez para sempre.

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